terça-feira, 5 de maio de 2009

Definição de um jornalista

Jornalismo é, em tese, um funil de letras por onde as informações cotidianas, porém, surpreendentemente imprevisíveis, passam para o papel. Neste processo, diariamente realizado, há um sujeito incansável na busca por constantes inspirações - mesmo que sejam, por muitas vezes, desastres, acidentes, entre outras formas de caos - para, pelo menos, tentar escrever algo que seja importante para o leitor. Às vezes surpresas (boas ou ruins), outras vezes fatos óbvios, mas não menos importantes.

O tal sujeito, contrariando o que muitos pensam a seu respeito, não é um robô programado para escrever sem sentimento ou indignação. Apenas é democrático. Compartilha os fatos ou experiências, deixando que o leitor de seus textos tire suas próprias conclusões.

Apesar de contido, ele nem sempre é bonzinho. Às vezes, por entusiasmo ou falta de inspiração, se vê escrevendo além ou aquém do quanto deveria.

Um jornalista é um ser humano que, através de palavras, define, querendo ou não, o que é verdade, o cotidiano e a própria vida que o cerca.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Exposição: Roberto Burle Marx - A permanência do instável

Completando 100 anos de nascimento de Roberto Burle Marx, o Museu do Paço Imperial homenageia o paisagista brasileiro – reconhecido internacionalmente – com uma exposição mais que completa de suas obras e projetos. De projetos paisagísticos e cenários para espetáculos a pinturas - abstratas ou não -, é uma bela demonstração da versatilidade do artista que, ao lado de nomes como Oscar Niemeyer, transformou espaços públicos em arte.

Os traços bem definidos, porém repletos de sensibilidade e complexidade, permeiam as diversas obras da exposição. Como pode ser visto nos "papéis de trabalho", Burle Marx experimentava permanentemente o desenvolvimento de uma estética paisagística abstrata. Porém, apesar de sua abstração, há uma imensa funcionalidade em seus projetos. Já suas pinturas – sejam elas as abstratas, os retratos ou as paisagens – apresentam, em traços belos e originais, cores vibrantes e bastante vida em termos de luzes e sombras, como pode ser visto em obras como “Mulher de Combinação Rosa”.

Curiosamente, na organização da exposição houve uma inversão na ordem cronológica das obras, levando o visitante a refletir por um outro ângulo a evolução do artista, partindo de sua maturidade artística e plena liberdade criativa ao seu período de formação.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Álbum clássico: Tim Maia - Racional (1975)




Entre as fases mais loucas do grandioso e problemático Tim Maia, a sua fase Racional se destaca pela criatividade, musicalidade e pela originalidade. Empolgado ao descobrir uma seita chamada Racional, envolvida com a ufologia e a ciência, Tim se aprofundou em sua nova ideologia a ponto de gravar importantes álbuns dedicados à sua nova crença, sendo eles os volumes 1 e 2 do álbum Racional. Quando desiludido posteriormente com a seita, o cantor mandou tirar de circulação os álbuns, o que os torna ainda mais raros.

Este álbum em particular, o mais clássico e alternativo da carreira de Tim Maia, é recheado de arranjos ‘suingados’ de guitarra, levadas contagiantes de bateria, além dos vocais sempre carregados de emoção pelo controverso ícone do Soul nacional, na época afastado dos vícios, o que se reflete positivamente em sua voz. Nem mesmo estranhas e marqueteiras citações - como “Leia o livro ‘Universo em Desencanto’” - comprometem o trabalho, graças à grande musicalidade e sentimento expressos no álbum.

No álbum, há grandes passagens instrumentais que transitam entre a ‘soul music’ americana e a música brasileira, em meio a coros e vocalizações emocionantes e viajantes. Um álbum clássico e alternativo ao mesmo tempo, que demonstra um Tim Maia saudável, feliz, com uma liberdade de expressão “inofensiva” e poderosa, sem medo de ser incompreendido por sua devoção entusiasmada.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Livro clássico: "Admirável Mundo Novo" (Aldous Huxley)




Em um mundo tomado pela artificialidade – no qual bebês eram feitos em laboratórios, divididos por castas e setores - e pelo consumo de soma, uma droga que leva o usuário ao esquecimento proposital, Bernard sentia que não conseguia se enquadrar, que era diferente. Sempre incompreendido por todos, com atitudes “estranhas” para sua época, ele chegou a tentar mostrar um lado mais orgânico – ou humano – para sua companheira, mas ela já estava tomada pelo soma.

Quando viajaram de férias, se perderam e acharam uma tribo “primitiva”, onde havia até uma mãe, o que causou horror à “companheira” de Bernard. Lá conheceram um menino “selvagem” que poderia ser uma arma para Bernard quando voltasse àquele mundo artificial. Porém, o garoto não conseguia compreender tal mundo, onde leituras de Shakespeare não eram apreciadas, mas a Música Sintética sim.

O garoto, que viu a mãe morrer nesse “novo” mundo, não se adaptou e passou a ter sérios conflitos, além de tentar fazer com que o compreendessem a qualquer custo, se rebelando contra o sistema daquele mundo.

O livro, lançado em 1932 e escrito por Aldous Huxley, gênio visionário da literatura inglesa, mostra até os dias de hoje, através de uma leitura fluida e sua escrita inteligente e poeticamente subversiva, como, com um apurado senso crítico, uma obra pode transcender seu tempo.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Álbum Clássico: 'Daydream Nation' (Sonic Youth, 1988, relançado em 1993)


O rock alternativo do final dos anos 80 e início da década de 90 foi incompreendido e ou maquiado por muitos, principalmente pela crítica e pela mídia especializada da época - como na relação de amor e ódio entre a MTV e o Nirvana - que gerou uma imagem deturpada desse famoso cenário musical, tornando-o até certo ponto acessível ao público de Rock em geral, porém gerando uma imagem limitada do “movimento” formado por algumas bandas geniais, porém desconhecidas em sua maioria.

Até hoje, muitos fãs de Rock em geral subestimam ou superestimam o subgênero de forma limitada, sem tomar conhecimento dos seus verdadeiros precursores ou de algumas grandes bandas que não tiveram o mesmo êxito comercial e midiático que Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e o sobrevivente Radiohead.

Dentre as bandas responsáveis por essa explosão do rock alternativo, o Sonic Youth foi um dos grupos mais cultuados, experimentais e originais.

O álbum é marcado por conter afinações diferenciadas e melodias que parecem apresentar uma influência da sofisticação minimalista do pós-punk somada a uma rebeldia inovadora e despreocupadamente punk.

A bela faixa de abertura, “Teenage Riot”, por exemplo, mistura uma agradável sutileza melancólica e uma energia contagiante, enquanto a faixa seguinte, “Silver Rocket” apresenta uma urgência punk misturada a uma roupagem espontaneamente moderna e experimental.

Indicado para aqueles que procuram um som espontâneo, experimental e bem feito. Ouvir esse álbum nos dias de hoje pode funcionar como uma excelente arma contra algumas bandas atuais que fazem um som sem nexo e se julgam modernas e autênticas.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Álbum Clássico: Rammstein - 'Mutter' (2001)


O álbum Mutter, terceiro da carreira do grupo alemão Rammstein, é um marco na fusão do Heavy Metal com a música eletrônica. Uma roupagem moderna e original ao som pesado que, apesar do que poderia parecer, não apresenta nenhuma ligação direta com o New Metal.

Riffs de guitarra simples e densos proporcionam um clima épico às faixas, como na cadenciada e sombria "Sonne", que conta ainda com belos 'backing vocals' fantasmagóricos.

Ao decorrer das faixas, cantadas em alemão, os sons de teclados, baixo e guitarra são devidamente encaixados, se completando de forma organizada e natural, sem nunca cansar o ouvinte.

Além de servir como referência para o Metal/Industrial, esse é um álbum inesquecível dentro da carreira dessa ótima banda, que se destaca pela criatividade, originalidade e por sua identidade própria.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Resenha: Monster Magnet - '4 Way Diablo' (2007)


Já pensou em um festival de bandas de rock alternativo, todas influenciadas principalmente pelo peso intenso e denso do Black Sabbath e a visceralidade do Led Zeppelin, entre outras grandes bandas de Hard Rock/Metal da mágica década de 70? Assim pode ser previamente definido o Stoner Rock, subgênero do Rock’n’Roll que teve seu auge na década de 90, no qual pode ser encontrado um peso nostálgico e moderno ao mesmo tempo.

Nesse mar de ondas sonoras gigantescas, há grupos surpreendentes como o Monster Magnet, que mistura todas essas influências já citadas sem deixar de apresentar identidade própria e única.

Guitarras contagiantes gritam através de distorções em ‘riffs’ densos e pesados, diretos e fenomenais – sem nunca perder a visceralidade do bom e velho Rock’n’Roll. Faixas como “Wall of Fire”, uma verdadeira tempestade de nostalgia e peso, são marcadas por simplicidade e intensidade.

Além do instrumental impecável que permeia esse “arroz-com-feijão” muito bem feito - tanto pelas guitarras quanto pela ‘cozinha’ da banda -, os bons vocais passam a impressão de que estamos nos primórdios do Hard Rock.

Recomendado para amantes de qualquer vertente do bom e velho Rock’n’Roll, principalmente aqueles que curtem um som direto e bem feito e que tenham mente aberta o suficiente para assimilar de forma positiva e clara tantas influências grandiosas.