segunda-feira, 22 de novembro de 2010

A linha tênue entre o popular e o erudito

Através das transformações que ocorrem constantemente na cultura em geral, a arte de origem popular passou a estar cada vez mais próxima àquela produzida nas instituições de renome, restrita durante muito tempo a públicos seletos.

Um dos mais importantes fatores, entre os que colaboram para a ambigüidade entre os conceitos citados, é a influência do cotidiano popular, quando este se torna utilizado para retratar a vida que cerca o artista e sua sociedade. Outro importante fator é a necessidade que a arte tem de ser reinventada e adaptada constantemente para que continue atrativa a um público em massa, passando por várias gerações, como acontece muito constantemente na música.

Nas artes plásticas e na literatura, por exemplo, houve diversas tentativas de inovações estéticas e ideológicas pela constante necessidade de expressão de alguns artistas, que quebraram tabus impostos pelas grandes “academias” e escolas de arte, ampliando o conceito de arte, mesmo que, às vezes, de forma polêmica ou subjetiva.

Outro exemplo ocorreu com a música erudita, há séculos atrás. Na medida em que alguns compositores renomados passavam a freqüentar e a se apresentar em espaços antes vistos como locais para uma população com baixo poder aquisitivo, a “grande” música – assim como a arte de forma geral - foi, passo a passo, sendo democratizada e ganhando um público mais amplo.

Cultura de qualidade a preço acessível no Teatro Municipal de Niterói

Atualmente, o Teatro Municipal de Niterói tem se firmado como uma boa opção para quem deseja assistir a bons espetáculos a preços acessíveis. Alguns dos eventos apresentados no palco do Teatro são sinônimos de qualidade, como a gravação do programa de rádio “Instrumental MPB Ao Vivo”, gravado na primeira semana de todo mês e transmitido pela MPB FM. Apresentado pelo saxofonista Leo Gandelman, um dos mais respeitados músicos da cidade, o programa recebeu, recentemente, entre shows e entrevistas, as apresentações do bandolinista Hamilton de Holanda e do baixista Arthur Maia, instrumentistas reconhecidos nacional e internacionalmente pelo seu talento.

Além da gravação do programa citado, há outros eventos acessíveis, inclusive em outras áreas da Arte em geral. Apresentações de dança, por exemplo, também sempre marcaram presença no Teatro Municipal. Os ingressos podem partir de R$ 1 - dependendo do horário e do dia - e as opções são das mais diversas possíveis.

Em alguns eventos realizados recentemente no local, como na apresentação de Ballet da Companhia de Ballet de Niterói em um espetáculo em tributo ao eterno músico e compositor Pixinguinha, há descontos que tornam ainda mais atrativos os espetáculos. Neste espetáculo de dança em especial, que custaria normalmente R$ 20, houve um desconto para R$ 5 a quem comprovasse ser morador de Niterói, apresentando comprovante de residência.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Resenha: show do Rush na Praça da Apoteose (10/10)

Ontem, desta vez na Praça da Apoteose, o Rio de Janeiro foi palco de mais um espetáculo do Rush, que havia feito sua apresentação anterior no Maracanã em 2002, num show não menos grandioso, que rendeu o DVD ‘Rush in Rio’.

O local do show, marcado historicamente pelo samba, abrigou um dos maiores espetáculos do Rock Progressivo na cidade maravilhosa.

Diferentemente do show anteriormente realizado no Rio - em que houve uma maior divulgação do bom álbum ‘Vapor Trails’ dos canadenses -, o foco foi uma retrospectiva na carreira da banda, com direito ao clássico ‘Moving Pictures’ tocado na íntegra.

Desta forma, clássicos como ‘Tom Sawyer’, ‘YYZ’ e ‘Red Barcheta’ não faltaram na apresentação, além de outras canções não menos excepcionais como a bela e empolgante balada ‘Closer to The Heart’, além de pérolas como ‘Marathon’, ‘Freewill’, ‘La Via Strangiatto’, a épica ‘2112 Overture/ Temples of Syrinx’, entre outras.

Vale destacar também as duas ótimas músicas inéditas tocadas no show, ‘Caravan’ e ‘BU2B’, previstas para integrar o próximo lançamento em CD do Rush.

Com abertura e fechamento expostos em interessantes vídeos, a apresentação foi marcada como um espetáculo interativo com o público, com direito aos estonteantes e musicais solos de Neil Peart e Alex Lifeson, além de seus belos improvisos juntamente com Geddy Lee, mais conhecido como “God” Lee, título que, após o show, tornou-se ainda mais significativo.

sábado, 9 de outubro de 2010

Talento do bandolim no Teatro municipal de Niterói (resenha)

Quinta feira passada foi um dia especial, em que o Teatro Municipal de Niterói foi palco de uma emocionante apresentação solo do bandolinista Hamilton de Holanda para um programa de rádio dedicado à música instrumental.

Entrevistado pelo saxofonista Leo Gandelman, outro grande músico, famoso e atuante na terra artisticamente fértil de Araribóia, Hamilton falou desde a influência musical oriunda de sua família pernambucana até sua recente turnê européia, que rendeu um disco ao vivo gravado em diversos países do velho continente, com músicas de sua autoria e clássicos como ‘Canto de Ossanha’ (de Baden Powell e Vinícius de Morais).

No show, dividido entre entrevista e apresentação de temas autorais e clássicos de Pixinguinha a Baden Powell adaptados ao bandolim de Hamilton, o público, presente em um bom número, parecia estar em transe com cada nota que o músico extraía de seu instrumento, sendo premiado com um intenso e sintonizado dueto entre Hamilton e Leo Gandelman na parte final da apresentação.

O programa é gravado no Teatro Municipal toda primeira quinta feira do mês e transmitido às terças feiras pela MPB FM.

domingo, 23 de maio de 2010

"Bestsellers" no supermercado

Um dia desses, fui surpreendido por uma estante de livros quando fazia compras em um supermercado. Os livros ou volumes, quase todos com selos de números de vendas ou, pelo menos, indicações de que seriam “bestsellers”, me levaram, em poucos minutos, a um sentimento de estranha admiração. Não que eu me preocupasse em ler livros comercialmente bem sucedidos, mas fiquei surpreso ao ver livros em geral com uma acessibilidade que há certo tempo seria surreal.

De um lado, passei os olhos desinteressados por livros de auto-ajuda. Com o tempo, percebi que, até certo ponto da estante, os livros de literatura e auto-ajuda pareciam estar misturados entre si, dando uma leve impressão de que, pelo menos ali, não havia distinção entre a função de ambos os gêneros.

Se, por um lado, esse tipo de acessibilidade pode incentivar a leitura além do ramo ainda restrito das grandes livrarias, também pode limitar as opções de compra de títulos a partir da ‘comercialidade’ dos mesmos, deturpando, muitas vezes, o que representa a qualidade de uma obra literária.

Porém, inegavelmente, pode ser um passo, ainda que curto, para levar a literatura a pessoas que nunca tiveram o hábito ou a oportunidade de ler um livro, ou, pelo menos, chamar a atenção para a importância que o universo dos livros tem.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Rock'n'Roll: uma história de peso!

Desde que o cantor e guitarrista Chuck Berry, entre outros, modernizou e acelerou o blues, consolidando o que viria a ser o Rock’n’roll de raiz, o Rock já nascia rodeado por polêmicas. O gênero musical talvez seja, ao mesmo tempo, o mais vanguardista e contestador e um dos que se mantêm com alguns dos mais fiéis seguidores do mundo da música.

Para quem acha que o bom e velho Rock’n’Roll é sempre igual, basta escutar discos entre os diversos e múltiplos movimentos musicais que o englobam. Os próprios garotos de Liverpool (Beatles) foram uma metamorfose ambulante durante sua carreira, começando como uma banda mais comercial para a época e sendo considerada posteriormente uma banda quase psicodélica, com clássicos absolutos como ‘Lucy in the Sky with Diamonds’ e ‘Come Together’, só para citar alguns.

Enquanto isso, os Rolling Stones e The Who sempre foram eternos rebeldes do Rock inglês, se contrapondo à temática inicial das canções dos Beatles, como em músicas mais influenciadas pelo Blues genuíno e uma veia mais abrangente em termos musicais. Com o tempo, de forma mais reflexiva e implícita, os Beatles passaram também a exercer papel fundamental para a visão crítica e rebelde da juventude da época, até mesmo pelo sucesso inegável que a banda já havia alcançado.

Do Rock Progressivo, que teve seu auge do final da década de 60 ao início dos anos 70, podemos destacar entre as bandas que se eternizaram como ícones do estilo que impôs experimentalismo e riqueza harmônica extrema ao Rock, expoentes de peso como Pink Floyd, Jethro Tull, Camel, Focus, Yes, Premiata Forneria Marconi, King Crinsom, entre muitos outros que tiveram seus altos e baixos.

Em meados dos anos 70, houve uma mudança radical no Rock, surgindo assim o Punk Rock, de Sex Pistols a The Clash e, posteriormente, seus derivados. O Punk Rock marcou época com um som anárquico e direto contra uma Inglaterra lembrada com certo saudosismo pelo Queen. No Punk Rock, diferentemente da abrangência sonora do Queen, surgiu o lema “faça você mesmo”.

A partir da mudança imposta pelo Punk Rock, vieram vertentes menos radicais e que passaram a mesclar sonoridades dentro do subgênero, como o Pós Punk, que deu origem ao Rock gótico em geral por sua veia simples, porém fortemente melancólica e introspectiva, a partir de nomes como Smiths, Siouxsie and The Banshees e Sisters of Mercy.

A partir dos anos 80, houve uma verdadeira revolução no Heavy Metal, oriundo do Hard Rock, e no Rock alternativo em geral, influenciado pelo Pós Punk e até pela música Folk americana. Após esse período, houve outros movimentos musicais que também foram importantes para a evolução do Rock atual, porém como evoluções de estilos anteriores, muitas vezes mesclados de forma a criar-se novos subgêneros.

Até os dias de hoje, o Rock’n’Roll fez e faz parte de inúmeras gerações e teve papel fundamental para a visão crítica de jovens de diversas épocas, do pacifismo rebelde de Woodstock ao peso impactante do Heavy Metal.

domingo, 16 de maio de 2010

Esperança para o mercado fonográfico?

Segundo a edição brasileira deste mês da revista Billboard, reconhecida mundialmente como uma das mais importantes publicações especializadas em música, o sucesso de vendas do mais recente álbum solo do guitarrista Slash (ex-Guns’n’Roses e Velvet Revolver) se apresenta como uma esperançosa alternativa para representantes do mercado fonográfico.

Slash teve seu álbum lançado em um pacote que integra o CD, auto-intitulado, acompanhado de uma edição especial da famosa revista Classic Rock. O sucesso das vendas ultrapassou as expectativas dos representantes pela distribuição tanto do CD quanto da revista, que pesquisam a idéia de lançar trabalhos de outros artistas veteranos neste formato, do “brutal” Slayer ao eletrônico Depeche Mode.

Este tipo de distribuição também já foi testado por alguns artistas no Brasil há certo tempo como Supla e o guitarrista “Tomati”, que integra a banda do programa do apresentador e entrevistador Jô Soares.

Por aqui, este tipo de lançamento pode servir, também, como uma experiência para fortalecer a divulgação e o incentivo a alguns artistas, dos famosos aos não tão conhecidos, até mesmo de forma independente, já que, de acordo com declarações de diversos músicos brasileiros, as grandes gravadoras no Brasil aparentam não valorizar o artista em geral pelo seu trabalho de forma justa.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Heavy Metal: entre o peso, clichês e versatilidade

Há gêneros musicais que se reinventam dia após dia, permanecendo vivos devido à atualização dos mesmos, seja pela mistura com outros estilos ou pelas inovações sonoras. Mesmo quando mantém uma linha musical fiel às suas raízes, o Heavy Metal, contrariando o que muitos dos leigos poderiam pensar, se reinventa a cada época e permanece como um gênero musical eclético dentro da fórmula sonora das bandas clássicas do estilo.

De uma das bandas precursoras do estilo e com um som mais aproximado do Hard Rock/Stoner, o Black Sabbath, ao Death Metal Melódico sueco atual, muitos cenários musicais se formaram durante diversas décadas até que pudéssemos presenciar a gama de vertentes que formam o cenário mundial do Heavy Metal.

Inicialmente, cada vertente parecia isolada em cada região em que se originava, como o Black Metal norueguês e o Trash Metal norte americano de meados dos anos 80, assim como a New Wave of British Heavy Metal (“Nova Onda do Heavy Metal Britânico”), o cenário que revelou bandas consagradas como o Iron Maiden e o Saxon.

Com o passar do tempo e a popularização do estilo por todo o mundo, se originaram outras vertentes, que muitas vezes são, até hoje, evoluções e misturas de elementos mistos das anteriores.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Quando o protesto virou modismo...

O Rock’n’Roll foi, durante muito tempo, marcado como um gênero musical de protesto, gerando verdadeiras revoluções, principalmente na juventude e em diversas gerações por todo o mundo. Desde os tempos de Woodstock, o Rock era visto como uma importante manifestação cultural e ideológica a partir da música, mesmo que houvesse mudanças de comportamento e de ideais dentro do próprio estilo, paralelamente às vertentes que borbulhavam a partir do mesmo.

Porém, com o tempo, o sentimento de protesto foi dando lugar a modismos passageiros e, atualmente, parte do Rock ficou com uma cara mais Pop do que nunca. Os punks (que eram sempre tachados como radicais) já foram substituídos por emos, por exemplo, cedendo à preferência do mercado e da mídia, atingindo um público desprovido de qualquer interesse social.

Fato semelhante foi o que ocorreu com o Rap, que hoje em dia perdeu espaço para um gênero supostamente chamado de Hip Hop, que inicialmente era o termo usado para definir o movimento no qual o Rap era incluído e acabou virando o nome de uma adaptação mais pop do Rap. A maioria das letras do Hip Hop contrariam a proposta original do Rap, que, a princípio, era a conscientização.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Incentivo à leitura versus Obrigação

Desde muito tempo, alguns professores de Literatura tentam impor a leitura de determinados livros como obrigação a seus alunos, excluindo totalmente a liberdade de escolha sobre os títulos a serem lidos, assim prejudicando a relação mais íntima com os livros por parte do aluno, pois o que poderia se tornar prazer passa a ser uma obrigação desprovida de interesse. A tentativa de guiar alunos por uma lista composta por títulos de livros considerados consagrados pode ser bem intencionada, mas é falha.

Atividades envolvendo a Literatura de forma mais dinâmica e com liberdade de escolha e pensamento são fundamentais para que o aluno não veja a Literatura como um bicho de sete cabeças ou um castigo, mas que, pelo contrário, enxergue a leitura como prazer e uma importante absorção de conhecimento cultural, histórico e social, com idéias que possam ser refletidas na formação do aluno como ser humano e cidadão.

É preciso estimular a leitura sim. Porém, são necessários meios alternativos para diversificar a visão sobre a Literatura, estimulando os alunos através de questionamentos internos e externos sobre a realidade de um romance ou um conto, por exemplo, e a realidade social do aluno, comparando e interligando os contextos, demonstrando a importância real que a Literatura pode exercer sobre toda a humanidade.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Do Samba ao Jazz: a influência da realidade social na música negra

Se comparado ao Jazz, o Blues é um gênero musical menos técnico e marcado pelo sentimento. Um fator importante que revela a realidade social no ambiente que se gerou o Blues enquanto estilo musical foi o fato de seus precursores serem, em sua maioria, autodidatas. Um ambiente mais rural e sofrido marcou a solidão transposta nas emotivas notas que marcaram o estilo.

O Jazz, de caráter mais urbano e gerado nas grandes cidades norte-americanas, foi crucial para a inclusão social de músicos negros na elite musical, sendo considerado por muitos um estilo mais diversificado e erudito dentro da música negra em geral. Neste gênero, foram inseridas outras formas de tocar de acordo com a influência de diversos músicos – entre eles o trompetista Miles Davis e o guitarrista Wes Montgomery (que era autodidata) - que aderiram ou contribuíram para a fundação do estilo, que é marcado pela complexidade e sofisticação, entre mudanças de compasso e altas doses de improvisação.

No Brasil, um exemplo de música negra que teve sua relação exposta com o meio social foi o Samba, que gerou subgêneros e posteriormente diversas outras vertentes, como a Bossa Nova, fusão do Samba com o Jazz. A Bossa Nova popularizou o Samba ao redor do mundo, ao relacionar a harmonia do Jazz com o suingue do Samba. Porém, antes do surgimento da Bossa Nova, o Samba tinha uma veia fortemente popular dentro do país, chegando a causar polêmica por sua veia crítica em defesa da população mais carente do subúrbio carioca, principalmente. Seus cantores e músicos eram considerados polêmicos por expor, de forma poética ou até mesmo escrachada, os problemas sociais do povo.

sábado, 27 de março de 2010

Renato Russo: 50 anos de um ícone do Rock nacional

Hoje, comemoram-se os 50 anos de nascimento de um dos vocalistas fundamentais dentro do cenário do Rock de Brasília. Renato Russo deixou sua marca registrada na história do Rock nacional, com sua voz inconfundível e cheia de emoção, que flertava entre a suavidade melódica e a intensidade sonora e é lembrado com respeito até hoje por diversos fãs brasileiros, roqueiros de fato ou apenas apreciadores do seu trabalho.

Desde o começo de sua carreira, Renato Russo era visto, até mesmo por colegas, como um ser conflitante entre a influência punk que tinha e seu lado poético, criando, desde sua entrada no extinto grupo Aborto Elétrico, uma identidade própria de interpretação e composição.

Um fato inusitado foi o estranhamento com as diferenças da cena do Punk Rock de Brasília e de São Paulo. Segundo Clemente, vocalista do grupo punk Inocentes, Renato Russo não se sentiu à vontade com o ambiente de São Paulo nos primeiros shows da Legião Urbana, em 1982, demonstrando as diferenças entre as propostas e visões dos músicos das duas regiões. Renato chegou a afirmar em entrevista à revista Bizz, em 1989, que o ambiente punk em São Paulo dava medo.

Porém, foi posteriormente, com uma Legião Urbana mais versátil, que Renato Russo contribuiu para que o Rock nacional nunca mais fosse o mesmo, ganhando espaço midiático. O destaque das músicas da banda sempre foi marcado pela voz grave e melodiosa de seu vocalista, desde a época mais punk à fase mais ‘mainstream’ do conjunto, com instrumental já mais diferenciado.

A banda passou a explorar então tanto as baladas tranqüilas e melancólicas quanto canções influenciadas pelo subgênero Pós-punk, com letras que retratavam de forma crítica a sociedade e as relações humanas, geralmente citando conflitos e preconceitos, mas reduzindo o tom de protesto.

O cantor não tinha medo de expressar suas idéias nem sua visão crítica sobre o mundo, tanto nas letras das canções que cantava quanto em entrevistas, o que era sempre tratado de forma polêmica. Porém, talvez seu maior conflito tenha sido o fato de ser uma pessoa diferente e com personalidade forte em uma época de radicalismos e “panelinhas” em seu cenário musical.

terça-feira, 23 de março de 2010

Cultura como inclusão social

Há projetos, em comunidades e áreas carentes em geral, que oferecem como alternativa de inclusão social o aprendizado e envolvimento com a cultura, com foco profissionalizante ou pelo menos como uma alternativa de educação social.

Algumas das entidades que se dedicam a essa nobre proposta raramente recebem incentivos externos. Porém, mesmo com dificuldade, conseguem, geralmente, cumprir seu papel.

Geralmente, desses projetos sociais que envolvem a cultura, costumam ser revelados grandes talentos, mistos de dedicação e aptidão, principalmente no campo musical.

Um exemplo é o da precoce e virtuose pianista que apareceu no Fantástico, que teve uma rara oportunidade de mostrar ao Brasil seu talento ao lado de um conceituado pianista.

Porém, alguns desses artistas não têm a mesma sorte pela falta de investimentos e de interesse da nossa sociedade, que muitas vezes trata esse tipo de caso como uma exceção anômala ao invés de enxergar a cultura como exemplo de inclusão social.

A inclusão “sociocultural” ocorre desde o acesso à leitura, consequentemente formando reflexões, autoconhecimento e conhecimento social, em projetos em bibliotecas, como no projeto Roça de Livros, localizado na Biblioteca do Dezessete do município de Santa Maria Madalena, RJ, como em outras expressões artísticas que outros projetos enfocam.

domingo, 21 de março de 2010

Arte das ruas!...

Muitos com certeza já se impressionaram com o talento de artistas de rua, talentosos mesmo em seu anonimato. Porém, nem só de alegrias é formado o palco que se torna a rua, os semáforos, entre outros espaços urbanos nos quais se tem a oportunidade de parar para ver um pouco de arte gratuita, mesmo quando essa implora atenção ou esmolas.

Por trás de um artista que transforma a faixa de pedestres num palco circense, sem ser convidado, há um improviso desesperado que reflete a falta de espaço e incentivo à classe artística em geral. De fato, por trás desse quadro, sempre me emociono com a arte das ruas e talvez seja esta a alma do negócio para esses injustiçados artistas.

Originalidade e apelo emocional são pratos cheios para chamar atenção do público em qualquer expressão artística! Porém, talvez por não terem um grande apoio midiático, entre outras formas de incentivo, artistas com capacidade de improvisação rara em escolas de pintura se perdem no esquecimento, como, por exemplo, um pintor que me impressionou fazendo paisagens em chapas com tinta spray, com a sutileza típica dos traços de aquarela.

terça-feira, 16 de março de 2010

Artistas e "artistas"

Ser artista é muito mais que aparecer na capa de uma revista de fofoca. É viver um mundo de criatividade e reflexão, transpondo os sentimentos oriundos das mesmas para a arte, concretizando-os em suas obras.

Porém, nossa sociedade ainda consegue ter a ignorante audácia de confundir artistas com famosos de forma generalizada. Nem todo artista é famoso e nem todo famoso é artista.

Uma prova viva deste tipo de confusão foi o que ocorreu quando eu estava passando pela rua e, de repente, o som de um violino docemente autoditada e melódico tocou meus ouvidos. Parei para observar as notas tocadas pelo violinista desconhecido, porém exímio. Aquelas notas suaves do instrumento que contrastavam com o caos urbano daquela rua comercial e movimentada me emocionaram. Porém, havia quem demonstrava indiferença ao prodígio artista, que, bravamente, não hesitava em propagar sua arte.

Na terra em que os “Big Babacas e Bundões” são considerados heróis por concorrerem de forma animalesca por uma grande quantia, entre festas e intrigas supérfluas, e passam a ser considerados artistas por terem contrato com grandes emissoras, a verdadeira classe artística sofre com a falta de reconhecimento do talento de grandes artistas e com o estereótipo demasiadamente falso de que quem é famoso que é artista.

O artista é aquele que vive pela arte, não importando o reconhecimento e fama como grau de talento, mas sim a profundidade das suas obras e como elas podem emocionar as pessoas.

domingo, 14 de março de 2010

O papel da poesia na reflexão do leitor

Infelizmente, nem todos gostam de poesia ou ao menos tem acesso às reflexões que esta pode proporcionar. Porém, nessa forma de expressão literária, as idéias têm um poder de reflexão tão profundo quanto de uma pintura, por exemplo.

No campo individual, a poesia tem um papel de autoreflexão, o que pode levar o leitor a um conhecimento interior raramente presente em outras formas de arte, sem que sejam necessárias outras formas de associação de idéias, pois as próprias palavras já são idéias transcritas, mesmo quando de forma subjetiva.

Poesia é a arte de transcrever emoções e sentimentos pelas palavras. A partir desta, também podemos repensar valores e ou pontos de vista sobre determinada situação, seja ela individual ou social.

A arte de criação com as palavras pode também educar o ser humano, a partir de uma reflexão interna e externa, ao repensar valores que envolvem si mesmo e o universo social do qual ele faz parte, gerando fatores sociais importantes para a inclusão cultural, como a consciência e o senso crítico.

terça-feira, 9 de março de 2010

Arte e transgressão

Do Blues, o lamento negro oriundo dos campos do Mississipi, ao Rock’n’Roll dançante e na época polêmico de Elvis Presley, toda forma de arte tem um lado transgressor, mesmo que de forma inconsciente. Mesmo nos textos mais introspectivos de alguns escritores, podemos notar idéias importantes em relação aos valores sociais de sua época, mesmo que surjam de forma aparentemente não intencional.

Em todas as formas possíveis de arte, podemos encontrar um ponto de reflexão que nos leve a repensar valores individuais e ou sociais. Pela história da pintura, por exemplo, podemos perceber, nos diversos movimentos que envolvem esse tipo de arte, as mudanças estéticas movendo-se de acordo com ideais distintos ao redor do mundo, do Impressionismo ao Expressionismo.

O mesmo pode ser visto na Literatura, na qual grandes pensadores inauguravam um jeito próprio de escrever e se desencadeavam como em uma árvore de influências pela identificação com algum ideal transposto pelas palavras, para defender ou reavaliar determinada idéia, fosse ela política ou humanisticamente individual.

A arte é a transgressão necessária a todo ser humano como expressão de liberdade, identificação ou qualquer sentimento. Ao quebrar um tabu, o artista impõe uma nova realidade, tanto no campo das idéias quanto em sua realidade social.

segunda-feira, 1 de março de 2010

A resistência da cultura negra no Brasil

Desde quando a capoeira foi trazida ao Brasil pelos escravos e mantida como forma de resistência cultural e social às atrocidades que sofreram pelos colonizadores, os negros passaram a exercer grande importância na cultura de nosso país e influenciaram grande parte da arte popular. Um grande exemplo é seu papel fundamental para a fundação do Samba que conhecemos, entre outras artes que originaram e ou influenciaram diversas outras manifestações culturais.

Com o tempo, o negro passou a desempenhar grande função nas lutas sociais através das artes, principalmente quando lutava por seus direitos, que por um longo período da história foram esquecidos pelo poder, e contra o racismo, por exemplo. Assim, ganhou destaque merecido através de sua inclusão que se deu pela garra e pela coragem.

O negro é a resistência de corpo e alma a um sistema injusto que se fez presente por toda a história, através do talento e do amor à sua cultura e suas raízes, que mantiveram acesas no país grandes expressões culturais que representam fielmente o interesse das classes excluídas socialmente.

Os negros deixaram sua marca na cultura do país, marcada por uma luta social constante e fidelidade às suas raízes, enriquecendo nossa arte com sua essência e sentimento. Por todo o mundo, deixam sua marca por onde passam, através de sua cultura, como exemplo do papel da valorização de suas raízes culturais, que se tornaram referência da importância da arte popular feita realmente pelo povo.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

As manifestações culturais e seu papel na sociedade

O papel das manifestações culturais

Tanto no campo individual quanto no campo social, as manifestações culturais se originam e se mantêm pela identificação de valores ou simplesmente pela tradição, fatores predominantes como hábitos culturais. Porém, há a arte popular desvalorizada e tratada por alguns como marginalizada, por servir de resistência cultural durante muito tempo a alguns grupos sociais excluídos.

A arte incomoda os poderosos, na medida em que exige vontades e direitos do povo, pois o artista faz parte deste e, muitas vezes, aponta novas idéias sociais que acabam sendo incompreendidas ou censuradas ao longo da história. No caso das manifestações culturais de uma forma geral, o povo que faz sua arte, mantendo a chama acesa de suas raízes, como forma de protesto ou simplesmente como auto-valorização e imposição de seus valores.

A apropriação abusiva nas manifestações culturais

Um problema constante é a comercialização desmedida em torno das manifestações culturais, que tem como consequência o desvirtuamento de sua intenção original. É impossível filtrar as mudanças que ocorrem na arte em geral, pois ocorrem aleatoriamente e de acordo com ideais diversos ou até mesmo adversos entre si, de forma regional ou universal. Porém, a questão parece estar longe de ideais concretos, mas perto da produção desses grandes eventos de forma mascarada e ao mesmo tempo atrativa como entretenimento.

Há uma enorme diferença entre abrir espaço para essas manifestações e vender midiaticamente esse meio de expressão popular como produto, direta ou indiretamente. Transformadas em produto, muitas vezes essas manifestações perdem sua força a medida que são comercializadas e acabam se estagnando ou sendo substituídas rapidamente por outro produto mais vendável. Um exemplo desse tipo de acontecimento é a confusão que muitas pessoas desinformadas fazem com a música caipira regional de raiz e a música sertaneja de hoje em dia.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Olho na telinha...

A cultura acompanha a voz do povo, que se reflete no sentimento expressado pela arte. Na televisão, principalmente nas “grandes emissoras”, o que vemos não é exatamente a voz desse povo, mas na maioria dos casos, valores impostos da elite para a massa, ou seja, uma cultura de entretenimento imbecilizante, oriunda da filosofia do escape e, de outro lado, da dominação, como uma droga social.

Na TV, um fator predominante nesse tipo de propagação de valores é uso de imagens marcantes e violentas, misturadas ora ou outra com um toque de um erotismo utópico, muitas vezes cruelmente sarcástico em sua associação. Podemos ver estes elementos em qualquer programa de auditório, em que pessoas correm e quase se machucam para pegar notas de dinheiro jogadas aleatoriamente por um apresentador de TV. Tudo tratado com muita hipocrisia e aceitação.

É antiga a tradição de uma TV padronizada para hipnotizar e explorar a curiosidade do povo, que é vendida em troca do escape e da relação “emburrecimento – apatia”, propagando valores de forma parcial, inconcreta e, muitas vezes, difundindo falsos valores e modas passageiras, que não representam fielmente a voz desse povo, apenas domado por uma casca bem produzida, mas que raramente gera algum benefício para a massa em geral.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A dualidade na expressão artística

Nossa cultura, da música à literatura, foi sempre marcada por ideais políticos conflitando com vertentes mais “românticas”, que aparentavam certa apatia quanto às necessidades de mudança no meio social. Se do Tropicalismo ao Mangue Beat, a música brasileira mantinha-se como importante ferramenta de protesto, por outro lado, havia sempre o romantismo característico da Bossa Nova. Há também casos como o da grande cantora Nara Leão, que participou tanto da Bossa Nova – movimento do qual foi musa - quanto do Tropicalismo.

No campo das palavras, a tendência era quase sempre descrever o cotidiano, muitas vezes em tom de denúncia social. Das idéias de João do Rio, Lima Barreto e Machado de Assis, por exemplo, saíram crônicas, contos e escritos em geral de cunho mais político. Enquanto isso, sempre houve também quem descrevesse e revelasse a alma do ser humano, de forma introspectiva, porém não menos importante como ferramenta de reflexão, o que muitas vezes também era feito por escritores que se dedicavam ao âmbito social.

Em alguns casos, essa escolha temática tem haver muito mais com a necessidade de expressão e a inspiração que vêm à mente do artista por sua reflexão e visão do mundo do que necessariamente uma visão política consciente.

É nesse ponto que a arte se torna abrangente e abre espaço para uma gama infinda de reflexões sobre o ser humano e o que o cerca, entre problemas para serem discutidos e prazeres. Porém, a arte sempre teve uma função social importante em qualquer sociedade, seja para manter valores intactos ou repensá-los, seja para reformas sociais.

Enfim, como disse certa vez Milton Nascimento, "o artista deve ir onde o povo está".

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Quando a cultura popular é ofuscada pelo consumo

Com o tempo, manifestações culturais genuinamente populares perdem força para apropriações e subdivisões muitas vezes mal intencionadas, cheias de estrangeirismos. Porém, essas imitações são rotuladas de forma a substituir a arte popular, que cai, aos poucos, no esquecimento. A questão não é, simplesmente, defender uma arte pura e 100% regional, pois isto seria uma utopia devido à abrangência da cultura popular brasileira e ao grau de influência que a mesma sofre e sempre sofreu de outras culturas.

As pessoas, hoje, se preocupam muito mais em acompanhar algumas novidades de certo gosto duvidoso, apelativo e muitas vezes com uma proposta desvirtuada do que manter-se fiéis ao que caracteriza os movimentos culturais populares e suas vertentes. Com isso, a tendência é que a arte popular perca força e seus objetivos. Mesmo que a arte popular passe por mudanças significativas ao longo do tempo, é importante a quem estiver a ela relacionada, ou seja, todos nós, a preocupação em não se desvencilhar das origens da mesma, lembrando que a arte é a expressão popular que representa interpretações sobre seu cotidiano social, que é transformado em história.

A voz da cultura é a voz do povo, mesmo quando está subversivamente ou subjetivamente revelada por obras nem sempre valorizadas. Por trás de cada obra de arte - seja ela em desenhos, imagens, traços, palavras, idéias concretas e não concretas – há sempre uma mensagem para ser redescoberta e vivida intensamente.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Cultura e memória: Entre tradições e revoluções!



Todo povo precisa da cultura como meio de tradição ou revolução. Preservar os bens culturais é papel fundamental de qualquer sociedade, seja como expressão de valores sociais, seja pela inovação ao criar, romper e recriar movimentos artísticos como expressões populares retratadas pelo sentimento transposto ou transcrito através das obras de arte, quando essas se espelham na realidade social ou em um questionamento derivado da mesma. Muitas vezes, servem, também, durante muito tempo, para manterem ideais intactos de resistência de determinado grupo excluído socialmente ou politicamente.

Da capoeira ao samba, a cultura brasileira apresenta diversos movimentos socioculturais ao decorrer de sua história. Alguns destes ganharam tanta expressão e força popular que viraram tradicionais, algo inevitável para um país com uma cultura tão rica, abrangente e miscigenada como o Brasil.

Embora alguns tentem – preconceituosamente, por radicalismo ou até mesmo pela falta de conhecimento – convencer o povo de que os movimentos revolucionários na arte são marginalizados, muitas vezes são estas manifestações culturais que dão real voz ao interesse popular de um povo historicamente usufruído e explorado, que tem no sangue a revolução que envolve suas artes, como uma voz silenciosa que grita em busca de justiça, resistência e liberdade.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Carnaval na cidade fantasma...

Minha cidade até que tem Carnaval!... Alguns poucos blocos de rua transitam em alguns pontos, mas não há aquela folia dos grandes carnavais nem o movimento descontrolado pelas ruas. Logo a cidade do MAC (Museu de Arte Contemporânea ou o famoso “disco voador”, para os leigos e turistas), cidade de grandes artistas (os que fazem arte) e personalidades de diversas áreas!

Os moradores da cidade dizem que o carnaval aqui é fraco, geralmente sem saber os motivos que levam a cidade a um certo desânimo nesse período que é um dos mais festivos para outras cidades. Aliás, pensando bem, isso é realmente um enigma, pois a terra de Araribóia é propícia a um bom Carnaval, pois tem belos cartões postais, como suas belas praias, e é uma cidade relativamente grande.

Porém, o Carnaval aqui parece ser restrito a festas em clubes, a quem torce pela Escola de Samba local mais famosa Viradouro pela TV no desfile das Escolas de Samba e alguns entusiastas que vagam pelas ruas tranqüilas de Niterói, procurando um pouco de animação gratuita em alguns blocos e ruas estreitas que, ainda que com dificuldade, mantêm-se dignamente fiéis ao espírito do Carnaval.

A impressão ao passar o Carnaval aqui é a de que o motivo talvez seja interno e parta da tradição do próprio povo local em viajar para outros locais no período festivo, dizendo que “o Carnaval de sua cidade é fraco” ou que “não existe”. Há, também, quem prefira a tranquilidade de uma cidade fantasma.

Apesar de tudo, tenho que admitir que tais afirmações fazem sentido. Niterói é uma cidade que perdeu, há muito tempo, força no Carnaval de rua. Pode-se dizer que a tradição carnavalesca nas ruas de Niterói anda já cansada com a falta de resposta de seu público, ou até mesmo que tenha se aposentado.

As pessoas se esquecem que o Carnaval de rua de uma cidade se faz com as próprias mãos do povo, já que é teoricamente uma festa popular e democrática. Enquanto as pessoas daqui não compreenderem o que representa o Carnaval e o que ele pode gerar, como o investimento em turismo que pode ser revertido para melhorias sociais na cidade, por exemplo, o Carnaval de Niterói estará sempre esperando, talvez nostalgicamente, que volte à ativa algum dia.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Show do Living Colour (Outubro de 2009)

O Living Colour demonstrou, em um show intenso, que a carreira da banda vai bem além dos hits, como “Cult of Personality” e “Glamour Boys”, que não ficaram de fora. O Circo Voador, na Lapa, ficou agitado e, em algumas situações, como na música “Open Letter To A Land Lord”, teve seu público emocionado, em meio a um repertório entre versões diversas e interessantes para alguns clássicos e canções que, apesar de não terem alcançado o título de hit, têm qualidade inegável.

Desde o início do show, o público foi bem receptivo, demonstrando um sincero interesse em ouvir a banda, que se caracteriza sempre por misturar diversos ritmos em suas músicas, como o Hard Rock, ritmos caribenhos (como o que marca a música já citada “Glamour Boys”), Pop, ritmos à “Black music”, entre outros.

A banda demonstrou, ao decorrer do show, toda a empolgação de tocar no Brasil e o envolvimento entre banda e público foi marcado por um show receptivo por ambas as partes.

De músicas mais pesadas, como em “Time’s Up”, “Go Away” e a famosa “Type”, a músicas mais tranqüilas e viajantes, como na já citada “Open Letter to A Land Lord”, o repertório abrangeu várias fases da banda. A maior parte das canções recebeu uma roupagem ainda mais pesada, porém altamente bem vinda, do que nas versões originais, graças principalmente à densidade das bases do guitarrista Vernon Reid.

Os solos de cada instrumentista foram, também, um show à parte e serviram para dar um gás para as músicas seguintes no show.

O Bis, tão bem executado como o restante do show, também empolgou em cheio aos fãs, quando foi tocada a balada “Love Rears It’s Ugly Head”, um cover para “Crosstown Traffic” (Jimi Hendrix) e, em seguida, também um cover para “Sunshine Of Your Love”, do Cream.

Um show nada óbvio e muito empolgante, eclético e muito bem executado pelos excelentes músicos que formam o Living Colour, entre eles o renomado guitarrista Vernon Reid e o vocalista inconfundível Corey Glover, que demonstrou ótima forma em todas as músicas, provando sua alta competência vocal depois de tantos anos de carreira.

Clássico remasterizado: 'Tudo Foi Feito Pelo Sol' (Mutantes, 1974)


Pouca gente se lembra ou ao menos conhece a história da fase mais progressiva dos Mutantes, que se inaugurou após a saída de Rita Lee e Arnaldo Baptista (teclados) da banda. Sérgio Dias (guitarra) poderia ter desistido da empreitada, já que, com o tempo, os membros que restariam - o baterista Dinho e o baixista Liminha, este que chegou a compor quatro das oito faixas do álbum em parceria com Sérgio Dias – saíram da banda.

O disco ‘Tudo Foi Feito Pelo Sol’ foi marcado por um ambiente “carioca” na banda. Na época, entre as gravações do disco, que marcou o Rock Progressivo nacional, a banda transitava pelo Jardim Botânico e por um sítio em Itaipava.

Transbordando arranjos psicodélicos e marcantes, ora sutis ora intensos, como nos dedilhados hipnóticos e galopantes e solos viajantes de Sérgio Dias, nas camadas de teclado do mineiro Túlio Mourão, em meio aos graves marcantes do niteroiense Antônio Pedro de Medeiros e o ritmo preciso e criativo do baterista seu conterrâneo Rui Motta, a banda empolga em cheio, principalmente a quem é fã de Rock Progressivo. Porém, as faixas são recheadas de elementos diversos que agradam em cheio fãs de qualquer estilo que engloba a nata do Rock psicodélico dos anos 70 em geral.

Embora as canções se mostrem enriquecidas com uma intensa força instrumental, as letras e o vocal espontâneo de Sérgio Dias também marcaram presença nesse disco dos Mutantes, que chegou à marca de quase 30 mil cópias vendidas.

O sucesso de crítica e público a partir do álbum mostrou que os Mutantes, apesar de trilharem um caminho sonoro diferente do anterior, conseguiram driblar as dificuldades através do talento e da criatividade em canções empolgantes.

Vale lembrar que a versão remasterizada em CD traz três faixas bônus, entre elas a polêmica “Cavaleiros Negros”, que, na época, foi modificada para “Cavalinhos Negros” devido à censura.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Resenha: "A Rua" (crônica de João do Rio que integra a obra "A Alma Encantadora das Ruas")

Descrever a alma carioca através das ruas do Rio, fossem elas urbanas ou suburbanas, definitivamente, foi uma qualidade nata de João do Rio, cronista carioca que, no início do Século XX, teve coragem e talento de sobra para descrever o cotidiano do Rio de Janeiro, sempre com um olhar crítico, que muitas vezes chegava a ser sarcástico. Porém, quanta maestria! Suas crônicas são um verdadeiro aprendizado de Jornalismo Literário e, hoje, porque não, de História.

A poesia com que João do Rio definiu as ruas e as diferenças entre seus frequentadores demonstra uma relação de intensa sensibilidade ao que poderia passar despercebido por muitos, como nos seguintes trechos:

“Algumas dão para malandras, outras para austeras; umas são pretensiosas, outras riem aos transeuntes e o destino as conduz como conduz o homem, misteriosamente, fazendo-as nascer sob uma boa estrela ou sob um signo mau, dando-lhe glórias e sofrimento, matando-as ao cabo de um certo tempo.

Oh! Sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue...”

Ao decorrer da crônica, a relação humana com o ambiente urbano é explorada de forma metafórica e poética, porém eficientemente direta, com poder de síntese em boas idéias.

A impressão que se tem ao ler a obra de João do Rio, seja nesta crônica, como em outras de sua autoria, é a de que o cronista explorava fielmente uma linguagem popular para a época, tornando seus escritos acessíveis e, ao mesmo tempo, belos e intensos.